Sobre Política e Arquitetura

aU – Arquitetura e Urbanismo

nº271 – Outubro 2016 

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Sobre Política e Arquitetura

Entrevista a Bruno de Almeida e Fernando Falcon

– Na opinião de vocês, o que significa ter arquitetos, como vocês dois e os demais que participaram do projeto, refletindo sobre a cidade? Qual a importância/impacto disso para a vida urbana e para a vida profissional?

Nos parece que estamos sempre a refletir sobre a cidade. Engendrada como habitat humano, a cidade é o palco de atuação dos seus habitantes e portanto objeto constante de reflexão, seja através de um discurso profissional daqueles que a estudam, seja através da percepção cotidiana do que é viver/sobreviver na pólis. A exposição e o seminário de certa maneira tentaram incorporar essas diferentes formas discursivas e comunica-las de maneira aberta. A carta como meio de comunicação escapa à linguagem autorreferente e cifrada da arquitetura/urbanismo e acessa mais diretamente aqueles que a leem. Talvez a importância disso seja a percepção de que para se pensar a cidade é preciso ler a cidade. Num movimento duplo, é necessário que a população se familiarize com as questões urbanas e se empodere com essa consciência e por outro lado, que os arquitetos e urbanistas aprendam a ouvir a cidade e responder de igual para igual.

– Arquitetos costumam manter certa distância da política. Por que vocês decidiram romper com isso por meio deste projeto?

A pergunta talvez parta de uma idéia de política como política partidária e administração do estado. Mas não podemos esquecer que política vem de pólis, dos procedimentos relativos à pólis e à vida urbana. Dessa maneira, qualquer ação na cidade que tenha impacto no coletivo é uma ação política. A arquitetura, em diferentes graus, está imersa no campo do coletivo e portanto, no campo do político. Estabelecer o prefeito, figura pública e eleita pela maioria da população, como remetente é um artifício para trazer a cidade para o centro da discussão e não uma tentativa de entrar nas disputas políticas. Ao mesmo tempo optamos por fazer a exposição durante o início da campanha como forma de intensificar o debate e nesse lugar de indefinição do prefeito a vir, despersonalizar o remetente.

– Na visão de vocês, por que essa distância entre arquitetura e política acontece? Quais benefícios podem surgir da aproximação entre arquitetos e políticos?

Não parece que há uma distância entre arquitetos e políticos. Historicamente a arquitetura foi instrumento dos políticos. Só com obras do Niemeyer podemos elencar um espectro político que vai da esquerda à direita, democrático ou de exceção, desde os anos 30 até a primeira década do séc. XXI. Nos parece ao contrário que a distância existe entre arquitetura e sociedade. Arquitetura e urbanismo não fazem parte da educação, não são discutidas pela grande mídia, as associações de classe quase não atuam fora de suas bolhas e os próprios arquitetos tem dificuldade em estabelecer uma linguagem acessível de comunicação. Portanto, a arquitetura é vista sempre como exceção e não um campo do conhecimento a ser compartilhado por todos. A aproximação que é necessária é entre arquitetura e sociedade.

– Teremos eleições agora em outubro em todas as cidades brasileiras. É a hora certa de debater o papel da arquitetura e sua contribuição para as cidades? Se sim, por que as propostas dos candidatos raramente tocam no tema?

Provavelmente a arquitetura não faz parte das campanhas políticas justamente por ser um tema pouco acessível para a maioria da população. E por mais que a arquitetura brasileira tenha produzido seus edifícios excepcionais, fomos incapazes de produzir uma única cidade decente. Nós como sociedade falhamos na construção de um projeto moderno. E diante do desastre das cidades brasileiras, como mostrar outras formas de ser e fazer cidade?



Cartas ao Prefeito

“(…) Assim, alguns dos irmãos mandados para esta aldeia, que se chama Piratininga, chegamos a 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554, e celebramos em paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos nossa casa. (…) Os índios por si mesmos edificaram para nosso uso esta casa: mandamos agora fazer outra algum tanto maior, cujos arquitetos seremos nós, com o suor do nosso rosto e o auxílio dos índios.”

Padre José de Anchieta. Cartas. Quadrimestre de maio a setembro de 1555.

A certidão de nascimento de São Paulo é uma carta.

Nas suas epístolas à Companhia de Jesus em Roma, o padre José de Anchieta narra metodicamente o cotidiano da recém fundada vila de São Paulo. Uma produção extensa, cheia de reflexões, dúvidas e questões que muitas vezes ficavam sem resposta. A incerteza inerente a esse tipo de correspondência, entre dois mundos tão afastados geograficamente, aponta-nos algo fundamental dessa forma de escrita: redigir uma carta é, antes de tudo, um ato de falar consigo mesmo. Olhar para seus próprios pensamentos materializando-se em palavras, testemunhar a constituição de algo fugaz e íntimo através da convenção dos símbolos, normas e leis da linguagem. E por fim, reconhecer-se, quase narcisicamente, no reflexo daquilo que foi redigido. A leitura atenta das cartas de Anchieta diz-nos mais sobre o seu rosto aflito, de homem ibérico e cristão no novo mundo, do que do índio que talvez nunca tenha entendido que o seu mundo era novo.

Porém, redigir uma carta não é apenas um exercício narcísico. Submeter-se a este tipo de escrita pressupõe a consciência e a conivência com uma série de fatores externos, alguns deles incontroláveis.

Primeiramente, pressupõe a existência de um destinatário que a receberá. Esse dado faz com que a carta se transforme num espelho de duas faces e numa espécie de construção dialética presa no limbo da antecipação de uma conversa porvir.

Pressupõe também seguir certos códigos e normas que façam com que a correspondência seja entregue. Como se a linguagem não fosse convenção (excludente) suficiente, ainda por cima, precisamos de selos, carimbos e dinheiro, pressupondo-se que o destinatário tenha um endereço reconhecido oficialmente.

Por fim, escrever e enviar uma carta é submeter a mensagem a um percurso pela cidade. Qual flâneur que se deixa seduzir por caminhos outros, esta está sujeita a mãos alheias, extravios e voyeurs.

Ao chegar ao seu destino final, a carta carrega outra dimensão que está para além da mensagem inicial. Os limites de suas folhas e envelope são agora os paralelos e meridianos de uma nova cartografia da cidade, que expressa os lugares, os convênios e as mãos pelas quais passou. O momento em que a mensagem chega ao seu destinatário aponta o que significa viver junto: uma constante definição e negociação das relações entre seus concidadãos no ambiente urbano e sob uma complexa armação administrativa e regulatória.

A carta não começa nem termina no momento de sua escrita, é um vetor no espaço em direção ao futuro. Não é por acaso que, quatrocentos anos depois de Anchieta, a concepção de Brasília nasce em tom de carta.

Ao propor o uso dessa forma-linguagem como um exercício de comunicação entre um grupo de profissionais que pensam e atuam sobre a cidade e o representante municipal do poder público, a exposição Cartas ao Prefeito: São Paulo colocou a cidade, com toda sua complexa trama sócio-espacial, no centro da discussão.

A exposição faz parte de um projeto mundial concebido pela Storefront for Art and Architecture e intitulado Letters to the Mayor, uma mostra itinerante que já aconteceu em cidades como Nova Iorque, Atenas, Bogotá, Buenos Aires, Cidade do Panamá, Cidade do México, Taipei, entre outras. Em cada uma destas cidades foram expostos conjuntos de cartas que arquitetos locais escreveram para o seu Prefeito, expressando suas ideias, opiniões e expectativas para a cidade.

A edição de São Paulo aconteceu durante o mês de Agosto e foi estrategicamente agendada para o início da campanha eleitoral para a Prefeitura. Trouxe um conjunto de vozes e ideias relevantes para a consciência pública e também para as agendas e mesas dos candidatos, intensificando a discussão sobre a cidade em um momento de (re)definição das estratégias e expectativas para o futuro da metrópole, em meio a um complexo momento político e econômico no país.

O grupo de arquitetos e instituições convidados apresentou um recorte variado das nuances que a disciplina arquitetônica pode conter, incluindo tanto nomes destacados quanto emergentes de áreas como: projeto, pesquisa, teoria, crítica, arte e curadoria.

As cartas foram exibidas no Pivô Arte e Pesquisa, uma associação cultural sem fins lucrativos no icônico edifício Copan em pleno coração de São Paulo, numa exposição gratuita e aberta ao público, com intensa visitação ao longo do mês. Posteriormente todas as cartas serão enviadas para o gabinete do Prefeito.

De modo a potencializar o impacto da exposição como plataforma para troca de ideias e debates, esta foi acompanhada pelo seminário Cartas Abertas, uma série de quatro mesas de discussão sobre quatro temas: Projeto, Estratégia, Resistência e 2054 – O 5º Centenário. Como oradores foram convidados alguns dos arquitetos participantes da exposição e outros agentes que têm atuado de forma ativa na estruturação de um pensamento crítico e propositivo perante a cidade.

No primeiro encontro se discutiu a importância e insuficiências do papel do projeto na estruturação física da cidade e como agente ativo na atuação dentro de uma esfera sócio-política. Se o projeto é aquilo que distingue a arquitetura da mera construção, conferindo-lhe um conteúdo semântico e consequentemente introduzindo-a num campo especulativo, este também tem a capacidade de, por um lado, envolver e afetar ética e esteticamente o conjunto de pessoas com quem entra em contato e, por outro, ser um vetor de segregação e alienação.

O segundo encontro partiu de uma leitura da estruturação urbana de São Paulo como um processo histórico pautado pelos interesses de uma pequena parcela sócio-espacial da cidade em detrimento da grande maioria da população e seus espaços. Num momento em que o planejamento urbano tende a encarar a cidade como uma empresa-mercadoria, o encontro discutiu outras estratégias, da micro à macro-escala, que visam contrabalançar a estruturação segregatória da cidade e engajar os seus cidadãos na construção de uma cidadania e esfera pública desejáveis.

No terceiro encontro se debateu a intervenção e ocupação do espaço urbano como ferramenta para forjar e horizontalizar um diálogo com o poder público, assim como instrumento importante no processo de subjetivação e empoderamento simbólico dos cidadãos sobre a sua cidade. Com a crise da democracia representativa cada vez mais evidente, inúmeras cidades têm sido palco para o surgimento de novas formas de coletividade como entidades políticas, que usam a revolução e a resistência como atos de catarse, negociação e mediação, de modo a lograr reformas e o seu “direito à cidade”.

Por fim, o último encontro do seminário abriu espaço para especular outras formas de ser na cidade, quando do 5º centenário de São Paulo em 2054. Se a celebração do 4º Centenário simbolizou a ascensão desta cidade como a grande metrópole Brasileira, usando-se a arquitetura como a principal forma de demonstração desse poder, como podemos pensar no futuro da mesma cidade depois de uma expansão desordenada, desigual e excludente?

Ao “abrir as cartas” ao público pretendeu-se gerar um vetor para a (re)ativação do desejo como ferramenta de transformação para além do possível.

Dizer sobre e para a cidade é também refletir-se no desejo de fazer e ser cidade.

Bruno de Almeida e Fernando Falcon



Para mais informações sobre o projeto, arquitetos participantes e para ter acesso às cartas e à documentação em vídeo do seminário visite: www.cartasaoprefeito.wordpress.com



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