SITU

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SITU, fundado e curado por Bruno de Almeida e desenvolvido pela Galeria Leme, é uma plataforma de produção e pesquisa artística que promove um diálogo entre arte, arquitetura e cidade. O projeto comissiona artistas Latino-Americanos a conceberem obras temporárias e site-specific para os espaços exteriores da galeria.

A escolha deste edifício (projeto de Paulo Mendes da Rocha com os Metro Arquitetos) deve-se às suas fortes características arquitetônicas e também à sua complexa história de construção, demolição, replicação e ampliação, que pode ser tomada como uma representação, à pequena escala, dos processos evolutivos da cidade de São Paulo e de tantas outras metrópoles contemporâneas.

O foco curatorial recai sobre artistas cujas pesquisas gravitem em torno de problemáticas arquitetônicas e do espaço urbano. Por outro lado, incide em artistas Latino-Americanos, já que estes possuem um outro entendimento intelectual e corporal do espaço, que advém de uma intensa familiaridade com a complexidade da esfera pública e dos processos urbanos e sociais que são específicos à América Latina.

Através do encadeamento de uma série de propostas artísticas que se relacionem tanto com a edificação quanto com o espaço público contíguo, SITU pretende continuamente engajar um público mais amplo e heterogêneo. O objetivo central é realizar obras e pesquisas que contribuam para uma problematização da urbanidade contemporânea entendida como uma complexa matriz sócio-espacial.


SITU #1 | José Carlos Martinat

SRE / Open Data / SP

16.07.2015 – 30.08.2015

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A pesquisa e projeto de José Carlos Martinat (Peru, 1974) aconteceram simultaneamente a uma crescente onda de escândalos financeiros ligados a grandes empreiteiras e políticos brasileiros, em meados de 2015.

Quando convidado a conceber um site-specific que problematizasse a cidade contemporânea, usando o edifício da galeria como um catalisador, o artista decidiu abordar o ambiente construído como resultado de uma série de acordos e negociações que acontecem por detrás da abstração da política e do capital. Interessava-lhe evidenciar o equilíbrio estratégico entre a informação que é divulgada e omitida e como isto permite formas não declaradas de governo onde se propicia uma submissão do corpo social à lógica da economia. Dentro desta estrutura de poder a moeda mais poderosa é a informação.

Para a sua instalação, o artista posiciona no topo da ponte da galeria um pequeno dispositivo composto por uma impressora térmica conectada a um software on-line que extrai e imprime informações estatísticas sobre os custos e receitas do Estado de São Paulo. A informação é retirada de um website criado pelo governo (www.transparencia.sp.gov.br) para fornecer acesso aos cidadãos a informações do Estado. Na instalação, gráficos estatísticos são impressos em tempo real como recibos fiscais e os cupões são lançados para o exterior do edifício onde ficam acumulados no pátio da galeria e podem ser lidos e levados pelos transeuntes.

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SITU #2 | Daniel de Paula

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03.09.2015 – 12.12.2015

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Daniel de Paula (EUA, 1987) reúne várias amostras de rocha, tecnicamente chamadas de “testemunhos”, resultantes de sondagens geotécnicas; perfurações para a exploração e reconhecimento do subsolo, necessárias ao dimensionamento e definição do tipo de fundações para qualquer grande construção. Estas amostras são compostas por camadas rochosas sedimentadas ao longo de milénios, formando uma espécie de linha de tempo que se estende desde a atualidade até a períodos anteriores à história da humanidade.

Os testemunhos coletados pelo artista são provenientes de sondagens executadas para obras públicas de mobilidade urbana no Estado de São Paulo, tais como o Metrô, autoestradas, o Rodoanel, entre outros. Estes grandes eixos de deslocamento são os principais vetores de estruturação urbana, fortes indutores da expansão territorial e fatores cruciais para a formação do preço da terra e seu uso.

Para a sua instalação o artista organiza os testemunhos cronologicamente segundo a sua idade geológica e os dispõe no chão do pátio da galeria. Ao reunir rochas provenientes de várias eras geológicas e distintos pontos da região metropolitana de São Paulo, Daniel de Paula contrapõe o tempo de formação da crosta terrestre ao tempo de construção e expansão da cidade. Friccionando duas percepções divergentes de solo, uma pautada pelo seu valor simbólico e outra instituída por um valor de troca e negociação.

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SITU #3 | Ricardo Alcaide

Ordem Informal

19.01.2016 – 15.03.2016

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O projeto de Ricardo Alcaide (Venezuela, 1967) é motivado pelo caráter ambíguo do pátio da galeria que, apesar de livremente acessível, é raramente usado pelos transeuntes. O artista acredita que isto se deve a uma espécie de barreira imaterial decorrente da sua própria configuração arquitectónica, característica recorrente também na experiência da cidade onde cada vez mais espaços públicos e semi-públicos se configuram como privatizados ou imaterialmente “cercados”.

De forma a problematizar esta questão, Alcaide projeta um grande volume negro que ocupa quase a totalidade do pátio externo da galeria, anulando este espaço externo e bloqueando quase inteiramente as duas entradas para o edifício. Para a construção deste elemento usa uma madeira vulgarmente utilizada na construção civil como estrutura para moldes de concreto in situ. Devido à obstrução do acesso habitual ao edifício, o artista desloca a entrada para a fachada oposta, utilizando uma porta que se encontra habitualmente fechada. Este novo acesso faz referência à entrada original do primeiro edifício da galeria (projeto de Mendes da Rocha), demolido em 2011 para dar lugar à sua réplica reorientada e readaptada, a estrutura que existe hoje.

Através da ocupação e quase inutilização de um espaço (semi)público e da consequente adaptação do percurso de entrada, Ricardo Alcaide induz a um reexame da relação física do visitante com o edifício e subverte o funcionamento normal da instituição.

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SITU #4 | Beto Shwafaty

Matriz Fantasma (Velhas Estruturas, Novas Glórias)

02.04.2016 – 25.06.2016

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O projeto de Beto Shwafaty (Brasil, 1977) parte de uma pesquisa histórica e geográfica sobre o bairro do Butantã onde se localiza a galeria. Ao se debruçar sobre o passado colonial dessa área, o artista constata que ali surgiu, no século XVII, o primeiro trapiche de açúcar da cidade, um engenho movido a tração animal ou humana para moer cana-de-açúcar.

Apesar de parecer um dado histórico secundário, o fato é que tais engenhos fizeram parte de uma das primeiras e mais relevantes “indústrias” coloniais, assim como foram responsáveis pela consolidação de uma hierarquiza sócio-espacial patrimonialista e escravocrata cujos ecos perseveram até hoje. O engenho é também símbolo de uma forte relação entre poder e propriedade territorial que seria a base para a estruturação do território Brasileiro ao longo dos últimos 200 anos, responsável por processos de urbanização tardios e carregados de mazelas.

Para a sua instalação, Shwafaty ocupa o pátio do edifício da galeria com um trapiche de açúcar original e engendra uma instalação em três etapas sucessivas. Primeiramente, o engenho é exposto em movimento, ativado por um motor elétrico que o artista justapõe à peça antiga. Depois, o dispositivo é desmontado, e suas partes catalogadas e reorganizadas. Por fim, tais peças são retiradas do espaço, que passará a ser ocupado pelos seus rastros marcados no chão e por uma instalação com o registo de processos ligados àquele objeto.

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SITU #5 | Sandra Gamarra

Cielo Raso

02.09.2016 – 28.01.2017

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O projeto de Sandra Gamarra (Peru, 1972) se estrutura a partir da retícula construtiva do edifício da galeria Leme, uma malha ortogonal marcada pelas fôrmas usadas na construção das suas paredes de betão aparente. Para a artista, a retícula (grid) é um elemento fundamental para entender a maneira como o Homem tem estruturado o seu espaço físico e social. Pode ser simultaneamente lida como símbolo da ideologia modernista, representando a ordem humana perante a “desordem” da natureza. Ou interpretada de acordo com as civilizações pré-Colombianas para as quais a sua geometria representava uma lógica maior, cósmica e mística, segundo a qual o homem poderia compreender a ordem da natureza.

Querendo justapor ambas interpretações do mesmo elemento, Gamarra cria um conjunto de blocos de betão que mimetizam, em dimensão e materialidade, aqueles das fachadas e os dispõe horizontalmente no pátio. A composição por eles formada delineia um vazio central com uma planta em forma de cruz escalonada, símbolo central das civilizações pré-Colombianas. Denominada Cruz Inca ou Chakana, simboliza a ligação entre o mundo terreno e o mundo “superior” e a sua forma é estruturada a partir de uma retícula ortogonal.

A Chakana delineada no pátio tem uma de suas pontas abertas para a rua, convidando o transeunte a entrar. Para a mitologia Andina o centro da Chakana representa o desconhecido, o inimaginável e o sagrado. É dentro deste espaço que o visitante descobre um outro conjunto de retículas; linhas traçadas à semelhança de constelações que desenham um mapa imersivo das rotas terrestres da América do Sul, e uma textura reticular de tecido que esta marcada sutilmente nas superfícies dos blocos de betão.

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