Ações: O que você pode fazer com a Cidade

Análise Crítica 

(click here for english text)

Der Lauf Der Dinge

Peter Fischli & David Weiss_Der Lauf Der Dinge, 1987_Video Still

Numa sociedade contemporânea, onde o isolamento é um meio de autopreservação e alienação torna-se uma forma de autopunição, de que forma estamos empenhados na construção de uma cidadania e uma esfera pública desejável?

Recentemente, inúmeras cidades ao redor do mundo têm sido palco para o surgimento de vários novos atores que se ergueram da apatia para colocar o sistema político em crise, exigindo reformas e os seus direitos à cidade. A multidão, como uma entidade política, usou e continua a usar a revolução e a resistência como um ato de catarse, negociação e mediação.

Ficou claro que o poder do povo é forte o suficiente para derrubar regimes políticos de um dia para o outro. Mas a destruição de dogmas, a mudança de comportamentos, hábitos e posturas, que nos impedem de participar plenamente na construção da cidadania, não pode ser feita de uma só vez. Estes deslocamentos não são o resultado de um único golpe vitorioso, mas resultam de uma sedimentação gradual de novas formas de lidar com a cidade e com o outro, que lentamente vão reconfigurando a nossa posição diante a realidade.

Como Mirko Zardini, diretor e curador-chefe do Centro Canadense de Arquitetura (CCA – Canadian Centre for Architecture), reconhece:

“O que é necessário é uma alteração da passividade através da qual estamos em conformidade com o que nos é oferecido todos os dias, para uma postura ativa, não tanto de resistência, mas de uma busca (indagação).”[i]

Essa busca, pode ter sido o ponto de partida para cada um dos projetos apresentados na exposição “Ações: O que você pode fazer com a Cidade” (Actions: What You Can Do With the City). Uma exposição que resultou de uma pesquisa iniciada pelo Centro Canadense de Arquitetura em 2007, com curadoria de Mirko Zardini e Giovanna Borasi, curadora de Arquitectura Contemporânea do CCA.

Esta exposição apresenta ações que instigam mudanças positivas nas cidades contemporâneas em todo o mundo, que foram realizadas por vários indivíduos ou grupos que estavam prontos para adotar um olhar distinto relativamente aos problemas da vida urbana contemporânea.

Apresentados por pessoas de diversas áreas do conhecimento, as propostas vão desde ideias simples até investigações baseadas em pesquisas complexas, e também incluem intervenções artísticas e performances. Esta série de ações bottom-up (de baixo para cima na hierarquia) não fornecem uma análise minuciosa dos casos e contextos, ao invés disso, elas estão intrinsicamente relacionadas com as pretensões e ímpeto de todos aqueles que estiveram diretamente e verdadeiramente envolvido nelas.

Uma miríade de inserções espaciais foram criadas, almejando proporcionar oportunidades para reinventar uma interação com espaços urbanos banalizadas. Intervenções simples funcionam como catalisadores para o engajamento das pessoas com o lugar e também para a interação entre os cidadãos para além das barreiras de classe e riqueza. Mostrando a influência latente que o compromisso e engajamento individual/pessoal pode ter em moldar a cidade.

Como Giovanna Borasi afirma:

“O que parece importante aqui, e o que esses indivíduos tal como os fenômenos urbanos que eles colocam em movimento, talvez, têm em comum, é a sua capacidade prolífica para desencadear uma “perturbação”, um certo desconforto no sistema pré-definido. Eles contribuem para a erosão de algumas noções estabelecidas de conforto urbano; minam a sabedoria convencional, mas não necessariamente a enfrentam de frente. Muitos dos projetos aqui apresentados são provenientes de um território de atrito e tensão entre a vida quotidiana dos habitantes urbanos e o que de outra forma seria considerada a norma proposta/imposta pela cidade.”[ii]

Esta “perturbação” e “fricção” é causada através do destaque voluntário (que estas ações praticam) das contradições existentes dentro de cada contexto. Isso desencadeia um “mal-estar” geral, que convida as pessoas a reorganizar seus esquemas mentais pré-formatados. Quando esta reorganização ocorre, as condições estão maduras para uma ação de destruição e substituição desses mesmos esquemas pré-concebidos, que contribuem para uma extensão de um sistema baseado na manutenção da dependência e passividade da população.

O objetivo é encontrar, dentro das pessoas, as ferramentas para a introdução de novas prioridades na sociedade, num efeito tipo o das estruturas de Rube Goldberg, onde uma ação desencadeia várias outras ações singulares em um interminável e complexo fluxo.

A exposição também aborda outro atrito subjacente: a relação entre as áreas de planejamento / design, com o domínio do “uso”, que envolve a participação crítica e criativa do cidadão.

Ao explorar propostas que, em grande parte, se  definem pela abertura ao usuário, essas ações questionam a intenção de uma ordem absoluta, que orienta historicamente a arquitetura e o planejamento urbano. Abrindo essas disciplinas para as práticas cotidianas, que escapam, surpreendem e subvertem qualquer imperativo prévio.

Ainda assim, a exposição não tenta quebrar nossos conceitos estreitos da arte da construção, introduzindo o mundo desconhecido da arquitetura sem pedigree[iii] (como Bernard Rudofsky fez em 1964). Nem pretende ficar por um mundo que poderia restaurar o atual. O que todas essas ideias oferecem é um “sistema paralelo” de alternativas possíveis, uma Cidade 2.0 (City 2.0), como sugerido por Borasi.[iv]

Com uma premissa simples, “Ações: O que você pode fazer coma Cidade” propõe uma reflexão sobre as complexas dinâmicas que diariamente constroem e reconstroem a cidade. Questionando até que ponto a arquitetura e o urbanismo ainda têm a capacidade sistêmica de incorporar uma série de forças sociais fluidas e mutáveis que não se encaixam no aparato estatal tradicional.

O aspecto fascinante da exposição, acompanhada por uma publicação e um site, é que ela funciona como um catalisador para o engajamento consciente de cada pessoa nos processos de construção e utilização das cidades, sublinhando uma responsabilidade coletivade uma natureza altamente ética.

Na verdade, esta investigação não apresenta apenas práticas e ideias díspares para tentar desenhar trânsitos complexos entre e dentro delas. Também incita conscientemente a criação de veículos críticos que são capazes de navegar entre os vários contextos heterogéneos e mutantes. Transformando a participação numa forma de engajamento crítico, ao invés de uma concepção idealista de convênio e camaradagem.

Para mais informações, clique aqui e visite o website oficial.

Rube Goldberg Cartoon

Rube Goldberg Cartoon


 

[i] ZARDINI, Mirko, “A New Urban Takeover” in Actions: What You Can Do With the City. Canadian Centre for Architecture, Montréal, Canada; SUN, Amsterdam, The Netherlands, 2008, p.15.

[ii] BORASI, Giovanna, “City 2.0” in Actions: What You Can Do With the City, p.22.

[iii] RUDOFSKY, Bernard, “Preface” in Architecture Without Architects. A Short Introduction to Non-Pedigreed Architecture. Doubleday & Company, Inc., Garden City, New York, USA, 1964.

[iv] BORASI, Giovanna, “City 2.0” in Actions: What You Can Do With the City, p.24.


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2 comments

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